Plano estratégico prevê adoção de três principais metas para reduzir a taxa média de incidência da doença em 10% até 2030 e torná-la rara até 2060

A Organização Mundial de Saúde (OMS) criou, pela primeira vez, uma iniciativa para erradicar um tipo de câncer do planeta, o do colo do útero. Outras doenças como a varíola e a poliomielite (paralisia infantil) já foram eliminadas em esforços anteriores.

Dois especialistas do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), unidade ligada ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), foram convidados a colaborar na elaboração do documento de estratégia global da OMS, a WHO Global Strategy to Accelerate Elimination of Cervical Cancer, para a erradicação do câncer do colo do útero como um problema de saúde pública, que será lançada oficialmente no dia 17 de novembro, em Genebra.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), estima-se mais de 16 mil novos casos da doença em 2020 no Brasil. No Icesp, a incidência do câncer cervical é maior em mulheres jovens, ocorrendo em 51% dos casos na faixa-etária de 31 a 50 anos (sendo 28% de 31 a 40 anos e 23% de 41 a 50), segundo levantamento de novas pacientes encaminhadas para tratamento no Instituto nos últimos cinco anos. “Esse é um dado preocupante, pois o câncer do colo do útero é uma doença evitável e curável, se detectada precocemente e tratada com eficácia”, afirma a especialista em Radioterapia, coordenadora médica do Serviço de Radioterapia do Instituto de Radiologia do HCFMUSP e médica do Icesp, Profa. Dra. Heloisa de Andrade Carvalho. 

“Atualmente cerca de 75% dos casos que chegam ao Instituto do Câncer já estão em estágio avançado da doença e, por esse motivo, a taxa de mortalidade é muito alta. Esse tipo de tumor pode ser eliminado com os conhecimentos científicos atuais. Por isso, a OMS conclamou os países membros para o desenvolvimento da WHO Global Strategy to Accelerate Elimination of Cervical Cancer (Estratégia Global para Eliminação do Câncer de Colo de Útero) como um problema de saúde pública”, completa o ginecologista, professor associado da Faculdade de Medicina da USP e médico chefe da equipe de Ginecologia Oncológica do Icesp, Prof. Dr. Jesus Paula Carvalho.

O plano conta com objetivos e metas claras para ações a serem implantadas no período de 2020-2030, que consiste em três pilares: vacinação, realização de exame de detecção (papanicolau) e tratamentos eficazes. Com base neles, a iniciativa recomenda um conjunto de metas que cada país deve cumprir para iniciar o caminho da eliminação do câncer cervical, são elas:      

  • Que 90% das meninas sejam vacinadas contra o HPV (Papilomavírus Humano) até os 15 anos;
  • Que 70% das mulheres recebam pelo menos dois exames preventivos de alta qualidade, sendo um até os 35 anos e outro até os 45 anos;
  • E que 90% das lesões precursoras e o câncer recebam tratamento adequado.

As projeções da OMS mostram que atingir as metas neste período pode reduzir a taxa média de incidência de câncer do colo do útero em 10% até 2030, o que resultará em 70 milhões de casos evitados em um século. Além disso, estima-se que 62 milhões de mortes por câncer cervical podem ser evitadas até 2120. 

“Esse é o início de um longo processo, que se implantado agora, a perspectiva é que o câncer do colo do útero seja uma doença rara já em 2060”, diz Jesus Paula Carvalho. “A estratégia é de extrema importância para a população, pois atualmente enfrentamos alguns obstáculos no caminho para a erradicação da doença. A começar pelas deficiências de programas organizados de vacinação e rastreamento em muitos países de baixa e média renda, que são justamente aqueles com maiores taxas de incidência e mortalidade por câncer do colo do útero. Mesmo nos países que disponibilizam vacinas para toda a população-alvo, como o Brasil, as taxas de cobertura de rastreamento e vacinação são frequentemente baixas e precisamos reverter isso”, completa.

Como prevenir

A prevenção primária do câncer do colo do útero está relacionada à diminuição do risco de contágio pelo Papilomavírus Humano e a vacina é a maneira segura e eficaz de proteger as mulheres contra a infecção pelo HPV. 

Quando falamos em câncer cervical, o vírus está relacionado ao desenvolvimento de tumores neste órgão em quase 100% dos casos. “O HPV é o causador da infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo. Estima-se que 80% da população sexualmente ativa poderá entrar em contato com o HPV ao longo da vida”, afirma a bióloga, docente do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da USP e chefe do Laboratório de Pesquisa de Inovação em Câncer do Icesp, Profa. Luisa Lina Villa, que contribuiu para o desenvolvimento de vacinas contra a doença.

No Brasil, a vacina contra o vírus do HPV é fornecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2014 por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI). De lá pra cá, apenas 51% das meninas de 9 a 14 anos de idade foram imunizadas, segundos dados divulgados pelo Ministério da Saúde no final de 2019. E o número entre meninos é ainda menor, de 22%. Além de crianças e adolescentes, a vacinação é gratuita também a portadores de HIV/Aids, pacientes oncológicos e transplantados de 9 a 26 anos. 

“Cada investida dos movimentos anti-vacina pode e deve ser considerada uma ação que impedirá a redução da mortalidade por câncer cervical. Cada omissão de recomendação médica, cada falta de informação adequada, cada atraso no tratamento, tudo interfere para que as metas da OMS de eliminação do câncer do colo do útero não sejam atingidas. Por isso, o esforço da WHO Global Strategy to Accelerate Elimination of Cervical Cancer é tão importante”, complementa Luisa.

*A contribuição de Jesus Paula Carvalho e Heloisa de Andrade Carvalho se deu em delinear o tratamento do câncer invasivo, de acordo com a realidade de cada país e região.

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